quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Arte Moderna

Primeiro eu estou em uma paisagem totalmente branca. É um lugar cheio de árvores, todas brancas também, como se fossem recortadas em folhas de papel sufite. Eu ainda uso maquiagem, e pareço estranhamente deslocada nesse pálido cenário. Demoro um tempo pra me acostumar com a claridade e conseguir diferenciar as outras coisas que formam a paisagem. São bancos de madeira branca, grama branca, pássaros brancos voando em um céu branco com nuvens de chantilly. Com o tempo, o tom acinzentado das sombras vai dando um aspecto meio sujo, eu penso.
De repente eu me dou conta que estou em um livro cujas páginas, quando abrem, formam figuras em relevo, como um daqueles livros infantis. Mas (eu espero) esse não é um livro infantil. É mais um livro experimental, uma obra de arte moderna, a biografia de alguém que não existe.
Vou andando pra próxima página que se forma no momento em que eu piso nela. Me lembro de você, seus contornos vão se tornando cada vez mais nítidos e as partes do seu rosto formam um quadro de Dalí, onde sua boca é a principal peça da mobília. Mas seus lábios não estão pintados de vermelho-berrante, estão brancos, como mortos, assim como seus olhos, seu nariz, o piso e as paredes. Eu me aproximo e me espreguiço no sofá. Ah, como estou cansada! Queria ficar mais, mas não é um cômodo muito convidativo. É quase sinistro, sinto alguém me espreitando pela janela e saio correndo pras próximas páginas.
O contraste dessas páginas excessivamente coloridas com o branco das últimas quatro é tão forte que eu caio sentada. Hás muitas Marilyns olhando pra mim. As odeio, e se eu não fosse uma boa moça católica sairia enfiando alfinetes nos seus olhos. Fujo desse quadro, ele não evoca o que há de melhor em mim.
E então eu estou de volta ao cenário das árvores brancas. Que merda! Andando em círculos. Sei que o livro tem outras páginas, mas não consigo sair dessas três. Entro em desespero e saio correndo, mas acabo sempre no mesmo lugar. Forço os cantos e todos os lados mas só consigo me mover pra frente ou pra trás. Estou presa nessa droga de livro e nem ao menos sei como vim parar aqui!

"Eu não estou interessado em nenhuma teoria/nessas coisas do oriente,
romances astrais/minha alucinação é suportar o dia-a-dia/meu delírio é a
experiência com coisas reais" Engenheiros do Hawaii

8 comentários:

Iana disse...

Oi, Lê! =)

Não li, mas comentei pra você ficar feliz. Prometo, porém, ler direitinho, tá?
E comentar!

Beijocas.

ThÁ disse...

Oii!!
Falei que ia passar aqui e aqui estou! Na verdade eu li agora há pouco, mas nem ia comentar...não que não tenha gostado (justamente o contrário), mas num sabia ainda o que comentar, não sabia direito o que eu tinha achado.
Mas aí, logo que saí da net, eu fui tocar piano, uma música que eu tenho que ensaiar. E a sua história serviu direitinho pra música, é a mesma sensação! Então eu entendi realmente!! e adorei!! adorei a forma que vc descreveu esse desespero!
só uma coisa: a música não era moderna!
bjoo!

)borbas( disse...

Sonhei com um blog da Lê!

Gostei mesmo desse seu texto e do seu título!! O mais legal do blog, sem dúvida!!

Iana disse...

Lê!
Como pude demorar tanto pra ler seu texto? Caramba, é demais. Você tem trás umas imagens novas, a de tudo branco com o relevo de um livro infantil. Lindas. Mesmo. E toda a angústia de fazer parte de um livro limitado e igual...
Esse texto é daqueles que são tristemente belos. Ou belamente tristes.
Enfim,
Beijos! ;)

Bruna disse...

fiquei me imaginando dentro deste livro, desenvolvendo uma pequena historia mental. uma vez assisti um desenho em que os personagens estavam presos em um tabuleiro de xadrez em um dos episodios. seu texto me lembrou dele q estava esquecido em algum canto da memoria.
gostei do jogo que vc faz com as cores. o texto no geral ficou bem poetico, essa coisa do livro, o jogo de cores e as confusões mentais.
um personagem meio preso dentro de seu proprio livro.
gostei! parabens,
Bjs,
Bruna

Julia disse...

Leeeeeeehhhhhh!!!!!!
adorei seus textos!!! o que me deixa magoada é que não sei se intendo tudo o que vc quis passar... fico um pouco irritada com esses textos que tem mil visões e mensagens "subliminares"... igual "A Rosa do Povo", quando vejo comentarios do livro falando de cada detalhe dele sinto que naõ sei nem ler um livro direito....
mas o bom é que vc eu conheçoo!!!(?!) e proxima vez que a gente se encontrar a gente conversa deles....

e do Batom.... MENINA!! me assustou!! pq no mesmo dia eu fiquei olhando pra uma mulher na tv com o batom mto vermelho, e fiquei pensando nele, antes de ter lido seu texto!!!! juro que depois até passei uns da minha mãe por curiosidade!!!!!!!!!!!!!!

to com saudades

Ricky disse...

O desepero nem sempre é amelhor saída para se encontrar a plenitude. Estar preso não significa estart parado. Já pensou nas revoluções psicológicas e emocionais que podem acontecer em que não sai das três páginas?

Iana disse...

O Ricky é foda. Quero novos textos! haha