De repente eu me dou conta que estou em um livro cujas páginas, quando abrem, formam figuras em relevo, como um daqueles livros infantis. Mas (eu espero) esse não é um livro infantil. É mais um livro experimental, uma obra de arte moderna, a biografia de alguém que não existe.
Vou andando pra próxima página que se forma no momento em que eu piso nela. Me lembro de você, seus contornos vão se tornando cada vez mais nítidos e as partes do seu rosto formam um quadro de Dalí, onde sua boca é a principal peça da mobília. Mas seus lábios não estão pintados de vermelho-berrante, estão brancos, como mortos, assim como seus olhos, seu nariz, o piso e as paredes. Eu me aproximo e me espreguiço no sofá. Ah, como estou cansada! Queria ficar mais, mas não é um cômodo muito convidativo. É quase sinistro, sinto alguém me espreitando pela janela e saio correndo pras próximas páginas.
O contraste dessas páginas excessivamente coloridas com o branco das últimas quatro é tão forte que eu caio sentada. Hás muitas Marilyns olhando pra mim. As odeio, e se eu não fosse uma boa moça católica sairia enfiando alfinetes nos seus olhos. Fujo desse quadro, ele não evoca o que há de melhor em mim.
E então eu estou de volta ao cenário das árvores brancas. Que merda! Andando em círculos. Sei que o livro tem outras páginas, mas não consigo sair dessas três. Entro em desespero e saio correndo, mas acabo sempre no mesmo lugar. Forço os cantos e todos os lados mas só consigo me mover pra frente ou pra trás. Estou presa nessa droga de livro e nem ao menos sei como vim parar aqui!
"Eu não estou interessado em nenhuma teoria/nessas coisas do oriente,
romances astrais/minha alucinação é suportar o dia-a-dia/meu delírio é a
experiência com coisas reais" Engenheiros do Hawaii